Você conseguiria passar 10 horas sem internet?
Na semana passada, vivi algo diferente.
Um voo longo, quase dez horas, saindo de São Paulo às oito da manhã e chegando no México no fim da tarde. Ainda no solo, no aeroporto de Guarulhos, a tripulação anunciou que não haveria internet durante todo o trajeto.
A minha primeira reação foi de ansiedade. Eu tinha mensagens acumuladas, assuntos pendentes, e-mails para enviar. Por alguns minutos, fiquei tentando achar uma solução, disparei as últimas mensagens…até perceber que não havia nada a fazer além de aceitar.
Me dei conta, também, de uma coisa: quando havia sido a última vez que passei um dia inteiro em plena quarta-feira totalmente desconectado? Confesso que não consegui lembrar. E-mail, WhatsApp, redes sociais, nada! Nem nas férias, experimentamos pausas como essa.
Depois da primeira reação, veio um certo alívio. Decidi relaxar e aproveitar.
Assisti a dois filmes excelentes. A História de Souleymane, sobre um imigrante africano morando em Paris tentando obter cidadania enquanto trabalha como entregador de aplicativo, e Vitória, com a Fernanda Montenegro.
Li mais da metade de um livro que estava parado na minha mesa fazia dias. Análise da Vera Iaconelli. Recomendo.
E, como sempre, anotei algumas ideias e reflexões no meu bloco de notas.
Foram horas de um tempo diferente que há muito eu não vivia.
Enquanto o avião cruzava os céus da nossa América Latina fiquei pensando em como a gente se acostumou a preencher cada minuto com alguma coisa. A acreditar que “produtividade” é sinônimo de produzir, responder, “entregar”.
Mas existe um outro tipo de tempo.
O tempo do ócio.
Aquele que (des) organiza as ideias.
Que descansa a cabeça.
Que provoca.
Que abre espaço para o novo.
Nem tudo na vida precisa ser produtivo no sentido corporativo do termo.
Nem tudo precisa ser performance e resultado.
É justamente nesses intervalos, quando nada nos é exigido, que surgem insights que dificilmente aparecem no meio da pressa da rotina.
Não é sobre romantizar uma volta ao nosso passado analógico. É sobre lembrar que, de tempos em tempos, é importante criar esses espaços. Eles são férteis, mesmo quando parecem vazios.
Se você tivesse dez horas inteiras, em pleno dia útil, sem nenhum tipo de conexão… o que faria com elas?



